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Em qualquer cidade do interior, o poder costuma criar uma bolha perigosa. O gestor passa a ser cercado não por amigos, mas por bajuladores — aqueles que evitam a “verdade que dói” para manter o conforto do cargo. É compreensível: ninguém acorda com o plano de errar, mas a vontade de acertar é insuficiente quando se mantém as pessoas erradas nos lugares errados. Falta o olhar cirúrgico.

No futebol brasileiro, Vanderlei Luxemburgo fez história não apenas pelo esquema tático, mas pela capacidade de mudar jogadores de posição, extraindo o melhor de cada um e salvando carreiras. Na política, a lógica é a mesma: o bom professor nem sempre é um bom gestor; o técnico de confiança nem sempre é o secretário eficiente. Em um cenário político delicado, onde cada minuto conta, uma peça fora do lugar custa caro aos cofres e à paciência do povo.

O tempo passa, o “ponto gira” e a simpatia do eleitor tem prazo de validade. No Corinthians, a história de Luxemburgo não se sustentou apenas com carisma; quando o resultado não veio, a queda foi inevitável. Por outro lado, vemos técnicos estrangeiros que, mesmo taxados de arrogantes ou prepotentes, permanecem no topo porque entregam o que o torcedor quer: vitórias. Na gestão pública, o cidadão troca o “sorriso no rosto” pela “obra no asfalto” e o “remédio no posto”.

Por fim, há um conflito de interesses insuperável: é impossível gerir o bem comum com a mesma mão que se ocupa em administrar a própria fortuna e bens materiais. O foco se divide e a cidade perde. A equipe atual parece um time desentrosado, jogando fora de posição enquanto o cronômetro avança. É preciso ouvir, mesmo que de longe, o aviso que vem das ruas: o tempo está passando, e a conta vai chegar.

Por: Leonardo Moreira

One thought on “Entre Amigos e Bajuladores: O Relógio não Para na Gestão Pública”
  1. Excelente reflexão. O texto toca em um ponto nevrálgico: a solidão do poder e o perigo da adulação. Como bem ensinou Maquiavel em O Príncipe, o governante que se cerca apenas de quem diz o que ele quer ouvir está fadado à ruína; é preciso ter ao lado quem tenha a coragem da verdade.

    Na gestão pública, a boa intenção é o ponto de partida, mas jamais o de chegada. Diferente do cidadão comum, que pode fazer tudo o que a lei não proíbe, o Chefe do Executivo está estritamente vinculado ao que a lei determina. Sem uma assessoria técnica de excelência, o gestor ‘bem-intencionado’ acaba enredado em processos judiciais e inelegibilidade, não por desvio de conduta, mas por erro de percurso legal. No setor público, o amadorismo é o caminho mais curto para o banco dos réus. O relógio, de fato, não para, e a Justiça não perdoa a falta de técnica.

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